» Portada
» Quienes
» Objetivos
» Contactos
» El faro del clima
» Archivos


Búsqueda personalizada





Enrique GUZMAN de Acevedo



Corresponsal en Europa



Corresponsal en Suecia
Fotografias



En Facebook














 
 
 
 
 




 
Búsqueda personalizada










Rincón Poético:
“O POETA LEVA DENTRO TODOS OS HOMENS”

Texto e fotos Jairo MÁXIMO



MADRID (EUROLATINNEWS) - Lêdo Ivo, poeta, novelista, contista, cronista, ensaísta e jornalista é um dos grandes nomes da poesia brasileira moderna. Membro da Academia Brasileira de Letras é autor de uma vasta obra que inclui narrações, ensaios e um fascinante tomo de memórias. Pertence à “geração de 45” que se preocupa com o apuro formal e foge a temas considerados banais.

Seus livros de poemas traduzidos ao espanhol são Las pistas, La moneda perdida, La aldea de sal, Rumor nocturno, Plenilunio e Calima.

Em 2009, sua obra Réquiem ganhou em Madri o prêmio Casa de América na categoria literatura espanhola e recentemente recebeu, na cidade de León, o prêmio Leteo 2011 por criar uma poesia “carregada de consciência social”.

Nesta entrevista exclusiva, concedida em Madri na mítica Residência de Estudiantes, Lêdo Ivo (Maceió, Alagoas, Brasil, 1924) revela que “talvez seja a poesia minha razão de ser e existir”.

Como devo tratá-lo: de senhor ou de você?

- Trata-me de você, por favor.

Você gostaria de brindar com um verso de sua autoria ao leitor desta entrevista?

- - (silêncio) Brindarei com três. A verdade está na terra / Nos navios ancorados / Ao longo do cais. Quem é Lêdo Ivo?

- É muito difícil saber isso. Você é você e você é aquilo que você pensa que é. E você é o que os outros pensam que você é. Então, você se faz com esta dupla imagem: uma real e outra imaginária. Embora ninguém saiba onde começa a realidade ou termina o imaginário. O filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) diz que o mundo é a representação que a pessoa tem dele. Este é o problema. Vivemos hoje numa época de incertezas. Guerras absurdas. Fome. Crises terríveis. Retrocessos. Um mundo cada vez mais kafkaniano como se a própria vida real -a vida acordada- fosse o pesadelo para milhões de pessoas. Talvez o próprio mundo em que vivamos seja hoje um mundo virtual no qual a gente não tem como sair. Esta é a minha visão. E dentro deste mundo eu não sei o que sou, nem quem sou.

Considera que a infância é perene?

- Sim. É a base de tudo o que eu sou e é fundamental em minha obra literária. Um tesouro inesgotável. Acompanha-me sempre. Mais não só a infância já que pelo meu lado materno eu sou descendente da guerreira tribo indígena Caetê Marim, de Alagoas. Assim sendo, eu sou o único escritor antropofágico verdadeiro do Brasil porque eu sou antropófago de sangue e de berço. Toda a minha poesia gira em torno da minha infância e adolescência e, principalmente, da terra e da gente do lugar onde nasci.

Você tem gravado no território da memória alguma recordação infantil importante?

- Sim. Quando eu era menino, numa noite, meu pai nos levou -a mim e a meus irmãos- a uma feria. De repente eu perdi a mão do meu pai e fiquei durante uns minutos perdido chorando sentido a solidão. Desde a infância tenho um sentimento de perda, de estar continuamente procurando alguma coisa que não sei o que é. Este sentimento de perda talvez tenha marcado minha poesia.

Foi esta perda que o levou a encontrar a poesia?

- Não. Mas essa perda figura na poesia como um leitmotiv (motivo dominante). É um sonho abjeto que têm inúmeras versões. Todas as pessoas têm as suas abjeções. Muitas as escondem ou não têm a oportunidade de expressa-las. O sonho tem uma grande importância na vida das pessoas.

Lembra do primeiro livro que leu?

- Sim. Os Três Mosqueteiros (1844) do novelista e dramaturgo francês Alejandro Dumas (1802-1870). Porém, o que mais me fascinou e me alimentou na infância foi Os piratas das Bermudas (1909) do escritor e jornalista italiano Emilio Salgari (1862-1911) que escrevia maravilhosas histórias de aventuras. Como eu nasci numa cidade diante do mar, desde a infância e a adolescência tenho um sentimento de evasão, como se a minha vida fosse se realizar fora da minha cidade natal: Maceió. Mais adiante, essas experiências -da infância e da adolescência- se converteram em linguagem, em obras escritas. Foi assim que descobri que a vida tem um enredo, uma história. O próprio mundo tem seu enredo. Entendi que uma das funções do escritor é contar histórias.

Estruturar experiências, pensamentos em linguagem?

- Exato. O poeta, o escritor, o músico, o pintor, o arquiteto são pessoas dotadas do dom artístico que é ao mesmo tempo um dom de expressão pessoal e de comunicação.

Por que resolveu ser poeta?

- Provavelmente porque nasci poeta. O poeta primeiro nasce e depois se faz. Com o dom, o poeta necessita uma formação intelectual harmoniosa. A poesia é a conjunção do talento individual e a experiência pessoal com a tradição no sentido do conhecimento universal. E como sou um poeta brasileiro, me curvo à evidência em lhe dizer que a literatura brasileira não é uma literatura de projeção mundial, nem tem um legado de muitos autores essenciais, mas está sendo construída. Temos que procurar formação, informação e sugestões em outras literaturas. São os poucos os escritores da altura de Machado de Assis (1839-1908), Euclides da Cunha (1866-1909), José Lins do Rêgo (1901-1957) e outros. É uma literatura mediana, ao lado da literatura portuguesa, inglesa, alemã ou ao esplendor da literatura espanhola, que é a mais rica do mundo. Miguel de Cervantes (1547-1616), Luis de Góngora (1561-1627), Francisco de Quevedo (1580-1645), Antonio Machado (1875-1939), García Lorca (1898-1939). Talvez Cervantes seja o maior e o melhor escritor da humanidade.

Como encontra a inspiração para sua obra literária, em particular a poesia?

- Inspiração ou transpiração? Não é uma coisa que entra e sim uma coisa que sai. Não creio na inspiração, mas que ela existe. Eu não posso escrever um poema –quando, como e onde queira- porque é o poema que vem a mim como uma espécie de acúmulo que, de repente, se transforma em linguagem com sua estrutura, forma e rima, como se eu tivesse sido visitado por mim mesmo. O homem visitado pelo poeta.

Você encontra o poema ou o poema o encontra?

- É difícil responder a isso. A poesia tem dois temas fundamentais desde início do mundo até hoje: a celebração do mundo –da vida, da natureza, da paisagem- e da condição humana, aquilo que o escritor e filósofo francês Voltaire (1694-1778) denomina human condition. Neste sentido, o poeta é um homem que leva dentro todos os homens. Todos os homens estão dentro de mim. Sempre!

O poeta é o outro?

- É claro. O poema só se realiza plenamente quando é lido e compreendido pelo outro.

Como se relaciona com o outro?

-Procuro me relacionar bem embora eu entenda que o mundo é um mundo coativo e que muitas pessoas não aceitam a diferença, a singularidade. Nem todos os seres humanos são porosos com os sentimentos de fraternidade, de entendimento, de diálogo.

E, principalmente, respeito?

- Sim. Aqui em Madri, alguém me perguntou como encaro a má poesia feita pelos maus poetas. Não conheço maus poetas. Cada pessoa tem direito de expressar seu mundo dentro de suas possibilidades.

Você tem medo do poeta que leva dentro de si?

- Não. Talvez seja a poesia minha razão de ser e existir. A utilidade da minha existência está no meu trabalho.

Quem encontrou quem: você ao poeta espanhol Juan Carlos Mestre (prêmio Nacional de Poesia 2009) ou a ele a você.

- (risos) É um negócio curioso. Há muitos anos, o poeta e escritor espanhol Antonio Pereira (1923-2009) foi ao Brasil. Por circunstâncias inexplicáveis, desde o primeiro instante nos tornamos amigos. Até o levei a minha fazenda para passar um fim de semana. O quarto em que dormiu -disse ele- estava cheio de vagalumes. Até me confessou que não conseguiu dormir porque passou a noite inteira fascinado pelas luzes emitidas pelo bicho. Inclusive ele escreveu um poema muito bonito sobre aquela experiência. Quando regressou à Espanha, ele trouxe alguns livros meus e fez com que alguns jovens poetas espanhóis se interessassem. Foram exatamente estes poetas jovens como Juan Carlos Mestre, Guadalupe Grande e vários outros que se interessaram por minha poesia. Então, graças ao Pereira, aos vagalumes – a luz-, a Mestre e a outros, meus livros começaram a ser traduzidos na Espanha. Foi uma coisa inesperada e isso tem me alegrado muito, no meu tempo, onde a noite já desceu e o céu está cheio de constelações. Mestre até musicou um poema meu chamado Cavalo morto, escrito na adolescência. Antonio Gamoneda, prêmio Cervantes 2006, para mim é o maior poeta da língua espanhola vivo, me assegura que considera a Mestre o novo mestre da poesia espanhola.

O que você pensa do movimento dos indignados (15-M) que nasceu em maio de 2011, em Madri, e contagiou o mundo? - É um movimento muito importante que me interessa e me preocupa muito. Só tende a crescer aqui na Europa e nos Estados Unidos. Depois de ler o maravilhoso livro Indignai-vos (2010), do francês Stéphane Hessel fiquei impressionado. É um livro que comparo com Teoria da Relatividade (1915), do físico alemão Albert Einstein (1879-1955). Em Indignai-vos está a chispa.

Acredita que esse movimento chegará ao Brasil?

- Sim. No entanto, lamentavelmente -e digo lamentavelmente com profunda tristeza- no Brasil, as lideranças estudantis agrupadas na União Nacional de Estudantes são muito ligadas ao governo do Partido dos Trabalhadores que lhes dá muito dinheiro, e assim eles têm silenciado diante de coisas absurdas que tem acontecido no país e no mundo. Espero que eles mudem de opinião porque o movimento dos indignados é mundial e vai contribuir para uma espécie de mudança global. Não sabemos que mudança é, sabemos apenas que essa mudança será para um tipo de sociedade em que o dinheiro não seja a base, a semente, a coisa mais importante, o seminal... Outros valores podem ser implantados. São possíveis! Estamos vivendo a efervescência de um novo mundo.

Você tem “carteirinha” de partido político?

- (risos) Não. Hoje vivemos numa época em que os ismos acabaram.

Sem exceções?

- Sim. A característica do homem moderno, depois do fascismo e do comunismo, é que se gerou uma nova doutrina na qual as multidões vivem sempre colocando suas esperanças em determinados políticos -indivíduos de um partido- que acabam lhes decepcionando. Em seguida, elegem outros, de outro partido, e acontece a mesma coisa. É um círculo vicioso. As multidões sempre estão procurando um novo caminho. Os políticos vivem disso. Talvez este novo caminho só possa ser descoberto pela indignação, nesse processo dos “indignados do mundo” do qual falamos antes.

Em sua opinião, quem manda mais hoje no mundo?

- Os banqueiros.



O que pensa das guerras?

- Tenho horror às guerras. São frutos das injustiças e da fome que o homem tem de se apropriar das coisas dos outros homens. Não há guerras justas. Ocidente/Oriente jamais se encontrarão como tenta -ou finge que tenta- o presidente Barack Obama. O Ocidente está no Oriente –Iraque e Afeganistão- matando milhares de pessoas em nome de uma coisa chamada dominação econômica e não para defender os direitos humanos. O Ocidente deveria respeitar a sabedoria milenária de outros povos. Graças a Deus eu sou de um país pacífico, como o Brasil -um país de proporções continentais- que nunca pensou em invadir os seus vizinhos e que respeita as diferenças. O Brasil só pensa na paz. Acho que isto serve de lição para o mundo.

Mas o Brasil não entra em guerra com ninguém porque já tem sua guerra interna contra o tráfico de drogas, o racismo, a violência urbana, a homofobia, a miséria ou a corrupção política endêmica. Ou não?

- Sim... Muitos países têm sua guerra interna. Contudo, a guerra contra a miséria é o grande desafio neste momento no Brasil.

Por que o Brasil - desde a independência de Portugal, em 1822, até hoje 2011- não se atreve a fazer uma reforma agrária?

- Não sei. É uma lei que não sai do papel. Nem a direita nem a esquerda se atrevem a realizá-la. É uma resistência impressionante. Conseqüentemente, as ocupações de fazendas que existem no país não podem ser censuradas porque são decorrências desta imobilidade do governo. Outro grave problema nacional é o desrespeito aos indígenas. A política no Brasil é muito sinuosa com relação aos direitos dos índios.

O que você pensa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

- É um negócio muito curioso a trajetória do Lula. Inexplicável e misteriosa, como todo fenômeno político. Lula é uma figura mítica na vida política brasileira. O Brasil mudou muito com ele, embora o país tenha muitos vícios políticos censuráveis, como é o caso da corrupção política. Mas tenho a impressão de que o Brasil tem uma vocação de grandeza e que essa vocação cada vez mais vai se solidificar, apesar da corrupção e da atual crise econômica que estamos vivendo no Ocidente.

Como convive com o tempo que passa voando?

- (risos) A passagem do tempo é uma das marcas da minha poesia. Eu sou o que passa. E o símbolo deste tempo é a água que leva sempre as imagens da vida, que é fluência e renovação.

Você é um homem feliz?

- Quando eu era jovem era amigo da escritora Clarice Lispector (1920-1977). Uma vez ela me mandou uma cartinha, quando eu ainda era jovem, que dizia assim: “Seja muito feliz. E faça versos”. Nunca pensei em ser muito feliz. Continuei fazendo versos. Talvez, como decorrência de fazer versos, eu sou feliz.

Sou testemunha de que nas bibliotecas públicas de Madri os livros de Lispector são cobiçados. “Sou uma convidada da literatura”, dizia ela.

- Nos Estados Unidos e no Reino Unido Clarice Lispector está se tornando um fenômeno como Franz Kafka (1883-1924). Um Kafka tropical. Luminoso. Quiçá vá ser a grande contribuição da literatura brasileira do século XX à literatura universal. Uma figura solitária, sofrida e misteriosa. Um mito. Admirável. Tenho saudades dela.

Você gostaria de brindar outro verso de sua autoria ao leitor desta entrevista que chegou até aqui? - (silencio) Mesmo quando sozinho caminho entre os homens.

Vale, (“Adeus, fique bem”, forma latina de se despedir). Também, a última palavra do livro Dom Quixote de La Mancha (1615) de Cervantes.

- (risos) ●

(EUROLATINNEWS)

Copyright:
Este artículo y su contenido no puede ser utilizado sin el consentimiento de
EUROLATINNEWS
  Copyright ® Euro Latin News --All Rights Reserved.